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Minha Vida Literária
04

jan
2022

[Resenha] Trilogia do Adeus — João Anzanello Carrascoza

Nesta trilogia, João Anzanello Carrascoza oferece um panorama que se estende através do tempo para falar da relação fragmentada das famílias. No primeiro livro, Caderno de um ausente (finalista do prêmio Jabuti 2015 e reeditado agora pela Alfaguara), o pai João escreve uma longa carta para a filha recém-nascida, Beatriz, para o caso de não estar presente no futuro dela. Já no segundo volume, Menina escrevendo com pai, é Bia quem responde, narrando a vida e o relacionamento dos dois. Por fim, em A pele da terra, Mateus, filho mais velho de João e irmão de Bia, narra sua relação com o próprio filho, outro João, durante uma peregrinação. Um olhar tríplice sobre os vínculos entre pais e filhos, e sobre como pequenas ações do cotidiano nos marcam para sempre.

 

Ficha Técnica

Título: Caderno de um ausente | Menina escrevendo com pai | A pele da terra
Autor: João Anzanello Carrascoza
Editora: Alfaguara
Número de Páginas: 136 | 144 | 108
Ano de Publicação: 2017
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Resenha: Trilogia do Adeus

A Trilogia do Adeus é a renomada série de João Anzanello Carrascoza composta pelos títulos Caderno de um ausente, Menina escrevendo com pai e A pele da terra. Com uma prosa sensível, o autor traz, em cada livro, a narrativa de um diferente membro de uma família, abordando situações do cotidiano e uma tentativa de capturar a essência de se estar vivo.

Caderno de um ausente é o segundo romance do autor, publicado primeiramente pela editora Cosac Naify e vice-finalista do Prêmio Jabuti em 2015. Nele, João, o narrador, é um homem de cerca de 50 anos que acaba de se tornar pai e escreve em um caderno para a filha Beatriz ao longo de seu primeiro ano de vida. Ele, preocupado em não poder acompanhar o crescimento de Bia por sua avançada idade, lembra a todo instante o quanto a chegada dela — como a vida — é marcada por ausências. Assim, a efemeridade, e o tempo como um todo, é um dos temas presentes entre as reflexões de João, que procura conscientizar a filha sobre a importância de capturar o agora, impossível de ser registrado em sua totalidade até mesmo pelas memórias, tão mutáveis e fugazes. E o texto de Carrascoza abriga em sua forma o conteúdo expresso: os parágrafos fluem entre vírgulas e um quase fluxo de consciência, dando à leitura a agilidade do tempo incapaz de ser contido. Da mesma maneira, os espaços que aparecem entre tantas palavras marcam a preocupação e a noção da iminente ausência — o vazio constituinte da própria experiência humana. Também, representam a importância do silêncio. As palavras, embora o veículo da comunicação, nem sempre expressam com exatidão sentimentos, impressões e insights que só podem ser compreendidos em momentos de silêncio, de total imersão no agora. Dessa forma, o autor a todo instante reflete sobre tempo, memória e linguagem, adicionando a camada metalinguística ao texto, já que pensa o próprio uso de suas palavras.

Menina escrevendo com pai foi publicado em conjunto com A pele da terra e com a reedição do primeiro volume pela editora Alfaguara, em 2017. Nele, a condição da memória se faz ainda mais evidente, uma vez que, agora, é Bia a narradora, relembrando seus vinte anos de vida ao lado do pai João. Diferentes fases de seu crescimento são rememorados, trazendo tanto a consciência da adulta quanto as lembranças das impressões da infância. Aqui, João Anzanello Carrascoza mantém o estilo de Caderno de um ausente, proporcionando, mais uma vez, uma leitura extremamente sensível e poética.

Por fim, A pele da terra encerra a trilogia com a narrativa de Mateus, primeiro filho de João e irmão mais velho de Bia. Agora separado da esposa, Mateus narra sua relação com o próprio filho — também João — enquanto trilham o caminho para Santiago da Compostela. O texto é marcado por setas, que tanto representam os rumos da peregrinação feita por pai e filho quanto indicam os sentimentos que Mateus dirige a João. Aliás, o fato de ele e o avô compartilharem o mesmo nome dá a característica cíclica da vida à obra de Carrascoza, que começa com um João narrando e se finaliza com outro João sendo objeto das reflexões narradas. Da mesma forma que nos livros anteriores, a consciência das ausências e da incapacidade de se conhecer o outro em sua plenitude dita o tom do texto, no qual Mateus tenta se apegar ao máximo aos instantes com o filho com quem nem sempre pode conviver. 

Em geral, a Trilogia do Adeus foi uma das leituras mais bonitas que já fiz na vida. Embora tenha gostado de Menina escrevendo com pai e A pele da terra, foi Caderno de um ausente quem me arrebatou, me proporcionando uma daquelas experiências em que eu tinha vontade de anotar todas as passagens, assim como sei que, futuramente, pretendo retornar a elas para releitura. A prosa de João Anzanello Carrascoza não só é pensada com esmero, mas é também de uma sensibilidade ímpar, capaz de emocionar pela mescla de beleza, literariedade, dor e poesia que entrega. Fica, também, a nota sobre a caprichada edição da Alfaguara: diagramados como pequenos cadernos de notas, trazem nesse formato uma maior sensação de intimidade, bem como deixam bem marcados nas páginas os sinais gráficos e espaçamentos utilizados pelo autor para acrescentarem sentido às palavras.

07

dez
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02

out
2019

[Resenha] Arquivo das crianças perdidas – Valeria Luiselli

Título: Arquivo das crianças perdidas
Título original: Lost Children Archive
Autor: Valeria Luiselli
Tradução: Renato Marques
Editora: Alfaguara
Número de Páginas: 424
Ano de Publicação: 2019
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Mesclando a crise familiar com a crise política do país, Arquivo das crianças perdidas mostra uma empatia única com a situação atual. Através de diversas vozes, sons e imagens, Valeria Luiselli cria um romance virtuoso. Uma família viaja de carro de Nova York para o Arizona durante as férias de verão, com o objetivo de chegar até a terra dos Apaches. No carro, eles passam o tempo como podem, com jogos e música, mas no rádio a notícia da “crise da imigração” não para de aparecer. Centenas de crianças cruzam a fronteira do México para os Estados Unidos só para serem presas do outro lado ― ou pior, ficarem perdidas no deserto. Conforme a família passa pelos estados do Tennessee, Oklahoma e Texas, a crise que eles mesmos enfrentam se torna mais clara. Os pais se distanciam cada vez mais, e as crianças ― um menino e uma menina ― são puxadas para o abismo que se abre. Um livro de temática ampla, Arquivo das crianças perdidas reflete a onipresença da “crise da imigração” ao deixá-la como pano de fundo constante ― Luiselli nunca traz a política para o foco de sua narrativa, mas sempre a insere no contexto. Arquivo das crianças perdidas é também uma crítica à tecnologia, uma análise sobre a volta do rádio como importante meio de comunicação, a estética vintage, entre outros. Mas seu maior tema é a escuta: este livro mostra como precisamos escutar tudo a nossa volta para melhor entender o mundo em que vivemos.

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