
Imagem: Divulgação
O agente secreto foi o último filme a que assisti no cinema em 2025. Recém-vencedor do Globo de Ouro de Melhor filme em língua não-inglesa e que garantiu a Wagner Moura o Globo de Ouro de Melhor ator em filme dramático, foi tão marcante que proporcionou meu retorno a este blog, depois de quase dois anos sem atualizá-lo.
Antes, uma contextualização…
Ainda que meu desejo fosse o de simplesmente ignorar o fato de eu ter sumido daqui — meu último post data de abril/2024 — , imagino que seja de bom tom ao menos me explicar — se é que alguém vai ler isso. Bom, se ninguém ler, tudo bem. Volto, em grande parte, por mim mesma. Além disso, se escolhi deixar de postar, agora também preciso lidar com a consequência de não ter mais o público de antes.
Em rápidas palavras: minha vida virou de ponta cabeça. Só em 2024, por exemplo, morei em três cidades diferentes. Atualmente, estou morando em São Paulo desde outubro de 2024 com meu marido — reader, I married him. Nosso processo de mudança foi muito desgastante, assim como 2025 como um todo.
Em 2023, eu já havia diminuído drasticamente os posts aqui, mas ainda postava. Em 2024, eu abri mão do blog, especialmente porque há anos o público vem migrando para outras plataformas e preferido os vídeos ou textos curtos, mas ainda mantive certa frequência no YouTube e Instagram. Ano passado, praticamente abandonei também o YouTube e reduzi bastante a produção de conteúdo no Instagram. Por um lado, não consegui dar conta de tudo. Por outro, também não via sentido em me manter tão ativa quanto antes. Cada vez mais, o que quero é focar a carreira de escritora e é nela que pretendo investir meus esforços.

Por que voltar agora, então?
Em 2026, completo 15 anos de internet. 15 anos desde que criei o Minha Vida Literária, que se expandiu e hoje é mais do que só o blog: é minha produção de conteúdo como um todo, independentemente da plataforma. Por isso, não quero que aqui se perca. Quero que o blog siga sendo um espaço para compartilhar minhas impressões sobre o que leio e assisto, ou sobre qualquer coisa que me dê na telha. Afinal, aqui é meu espaço, construído por mim.
Dito isso, vamos ao filme!
O agente secreto | Ficha técnica

Título: O agente secreto
Gênero: Drama; Policial
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura; Tânia Maria; Maria Fernanda Cândido; Gabriel Leone; Carlos Francisco; Alice Carvalho; Hermila Guedes; Udo Kier; Thomas Aquino
Duração: 2h40min
⚠️As informações abaixo foram retiradas na íntegra da página Wikipedia:
O Agente Secreto é um filme neo-noir brasileiro com coprodução francesa, neerlandesa e alemã de drama, suspense e thriller político de 2025, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. Produzido pela CinemaScópio (Brasil), o filme teve sua estreia mundial no Festival de Cannes em 18 de maio de 2025, onde competiu pela Palma de Ouro. Na ocasião, venceu os prêmios de Interpretação Masculina para Wagner Moura e Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho, além do Prêmio FIPRESCI da competição oficial e o Prix des Cinémas d’Art et Essai, concedido pela Associação Francesa de Cinemas de Arte (AFCAE).
No Globo de Ouro de 2026, foi indicado em três categorias, Melhor Filme em Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama, tornando-se o primeiro filme brasileiro da história a ser indicado a Melhor Filme em Drama. O Agente Secreto venceu duas das três categorias em que concorria, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama, e conquistou dois feitos históricos: foi o primeiro filme brasileiro a vencer dois prêmios Globo de Ouro em uma única noite, e Wagner Moura tornou-se o primeiro ator brasileiro a ganhar o troféu de Melhor Ator em Filme Dramático.
O agente secreto | Opinião
Começo dizendo que não tenho formação alguma em cinema nem muito menos um olhar técnico para o que assisto. Minha opinião é a de espectadora e, no máximo, de alguém que também trabalha contando histórias.

O agente secreto se abre definindo o tom do filme: época e cenário são apresentados nas primeiras cenas, assim como a atmosfera de incompreensão. Percebemos que o personagem de Wagner Moura está chegando à cidade, mas não sabemos quem ele é nem o motivo de seu retorno. Pouco a pouco, as pistas são dadas — e parcialmente se encaixam.
“Parcialmente” porque Kleber Mendonça Filho é genial. Inicialmente, o que acreditamos é que tudo mostrado se conectará em uma revelação linear, com respostas objetivas. Contudo, o que temos, na realidade, é um quadro muito mais amplo, no qual o papel do espectador é ativo: parte da compreensão depende do nosso próprio trabalho em unir o que foi apresentado.

Wagner Moura afirmou em seu discurso no Globo de Ouro que O agente secreto é “um filme sobre memória, ou sobre a falta dela”. O contexto da história é o de Pernambuco em 1977, de um Brasil ainda regido pela Ditadura Militar. Muito do que remanesce desse período é o trauma. Com ele, a memória — individual e coletiva — é afetada, na qual detalhes se perdem. O agente secreto não é um filme que deixa pontas soltas, mas um filme no qual não é possível atar todas de maneira explícita. A incompreensão é tema e conteúdo: está em não ser possível saber todos os detalhes, devido a uma “queima de arquivos”, assim como perpassa as gerações dos personagens representados. Está no filho que não consegue encontrar informações sobre a mãe; está no neto que pouco conhece sobre o pai. Acima de tudo, a incompreensão é parte da própria Ditadura.
Uma das maiores reviravoltas do longa está na revelação da identidade do personagem de Wagner Moura — aqui, sinalizo um spoiler para melhor me explicar. Para lê-lo, basta selecionar o texto. Por todo mistério envolvendo seu paradeiro, por toda rede de proteção que se forma ao redor dele, cria-se a expectativa do personagem ser, de fato, um agente secreto. Porém, ao descobrirmor ser somente um professor universitário, o baque é infinitamente maior. Afinal, percebemos estar no patamar não do mirabolante, da ação hollywoodiana, mas do quotidiano injustamente ameaçado pelo regime militar. Daí, vem a incompreensão: como ela pôde ser possível? Como seus horrores puderam ser aceitos? Como há quem ainda a defenda?
Para além disso, a história é contada de forma magistral. Há outra reviravolta, envolvendo a própria narrativa, que não só justifica a existência das lacunas, mas torna o filme ainda mais interessante de se assistir.

Um grande destaque é como Pernambuco — mais especificamente, Recife — se faz presente. Não se trata apenas de um cenário, mas de uma cultura intrinsicamente parte do longa. Carnaval, Frevo, Tubarões, Perna Cabeluda: todos presentes, todos apresentando e valorizando a cidade e conectados ao todo. A menção ao caso envolvendo os tubarões também se liga à produção científica e acadêmica do estado. O Carnaval e o Frevo são o riso e o alívio em meio ao caos. A própria lenda da Perna Cabeluda se vale como forma de entretenimento, mas é também símbolo da própria violência do período retratado, de onde remontam suas origens. Aliás, a cena envolvendo a lenda é uma das mais memoráveis do longa, trazendo uma perfeita atmosfera do horror gore, comum à obra de Kleber Mendonça Filho, como em Bacurau, e do trash.

E a cultura pernambucana em peso não é mera homenagem, mas parte integrante da crítica social feita pelo filme. O Norte e o Nordeste brasileiros como um todo são regiões-alvo de preconceitos e muito desvalorizadas. O que se produz no eixo Rio-São Paulo é o que se costuma reconhecer como “nacional”, enquanto as produções fora desse eixo são “regionais”. Em O agente secreto, Kleber Mendonça Filho traz a potência pernambucana e eleva a crítica feita no filme a outro patamar: ironicamente, é essa produção, que, em geral, é reduzida a “regional”, que, no momento, representa o Brasil no cenário cinematográfico mundial — e já conquistou feitos inéditos.
Mesmo estando sentada na primeiríssima fileira do cinema lotado e tendo visto o filme inteiro com o pescoço para cima, muito perto da tela, mal senti as quase 3h passarem. O agente secreto é daqueles longas que já nascem clássicos e um filme que, tenho certeza, quanto mais eu assistir, mais detalhes vou captar.
Muito prazer, eu sou Nádia e, que bom que vi uma resposta sua, lá no Facebook. So assim, acabei te “conhecendo”. Aproveito pra dizer que assisti o filme na terceira fileira e tbm nao senti o tempo passar… e te digo que saí do cinema impactada (já tentei achar um termo menos exagerado, mas não seria fiel). O Kleber Mendonça foi simplesmente genial em todas as escolhas. Ele consegue fazer com que vejamos e ouçamos, de forma clara e muito bem situada, o não mostrado e o nao dito. Mas, ele também diz e mostra m Nordeste