[Resenha] A Casa das Lembranças Perdidas — Kate Morton - Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
08

fev
2022

[Resenha] A Casa das Lembranças Perdidas — Kate Morton

Grace Bradley foi trabalhar na Mansão Riverton como criada quando era apenas uma menina, antes da Primeira Guerra Mundial. Durante anos, sua vida esteve ligada à família Hartford, mais
particularmente às filhas, Hannah e Emmeline.
No verão de 1924, em uma festa na casa, um jovem poeta atirou em si mesmo. As únicas testemunhas foram as duas meninas e apenas elas – e Grace – sabem a verdade.
Em 1999, Grace tem 98 anos e vive seus últimos dias em uma casa de repouso quando recebe a visita de uma diretora que está fazendo um filme sobre os acontecimentos daquele verão.
Ela leva Grace de volta para a Mansão Riverton e desperta suas memórias e seus fantasmas. Há tempos escondidos nos recantos da mente da senhora, eles voltam a assombrá-la. Um terrível segredo ameaça vir à tona, algo que a história apagou, mas que Grace ainda lembra.
Com uma trama misteriosa e emocionante, A casa das lembranças perdidas é o retrato fascinante de uma época, uma reflexão sobre a memória e a devastação da guerra. Um romance vívido de suspense e paixão, com personagens e um final que o leitor nunca vai esquecer.

 

Ficha Técnica

Título: A Casa das Lembranças Perdidas
Título original: The House At Riverton
Autor: Kate Morton
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Editora: Arqueiro
Número de Páginas: 480
Ano de Publicação: 2022
Skoob: Adicione
Compre: AmazonAmericanasSubmarino

 

Resenha: A Casa das Lembranças Perdidas

A Casa das Lembranças Perdidas é o romance de estreia de Kate Morton, publicado originalmente em 2006. Em 2011, saiu no Brasil pela editora Rocco, ganhando agora uma nova edição pela Arqueiro. A tradução de Léa Viveiros de Castro foi mantida, e a novidade na nova publicação é o prefácio escrito pela própria autora, além do acréscimo de algumas passagens escritas em formato de roteiro de filme e de matérias em veículos de comunicação. 

Grace Bradley trabalhou na Mansão Riverton como criada ao longo de sua adolescência e primeiros anos da fase adulta. Por anos, sua vida esteve intimamente ligada a Hannah e Emmeline, filhas da família Hartford. No verão 1924, uma festa terminou em tragédia, quando um jovem poeta se suicidou — e apenas as três jovens sabem, de fato, o que aconteceu naquela noite. Quando Grace já tem 98 anos, uma cineasta a procura para maiores informações sobre seus anos servindo a família Hartford, já que está produzindo um filme sobre os acontecimentos daquele verão. É quando as lembranças voltam com ainda mais força à Grace, assombrando suas memórias e ameaçando revelar segredos de anos.

Esse foi meu quarto contato com a escrita de Kate Morton, e, entre suas obras, se tornou uma de minhas favoritas, sem tirar o posto de A Casa do Lago. Em seu primeiro trabalho, além da autora demonstrar uma escrita primorosa, com personagens e enredo desenvolvidos com esmero, seu estilo e temáticas presentes em romances posteriores já podiam ser observados, como a cuidadosa reconstrução histórica da primeira metade do século XX, segredos familiares, a força da arte e um presente assombrado pelo passado. A influência da literatura gótica, como explicitado por ela em sua nota final, traz o ar soturno de A Casa das Lembranças Perdidas, marcada também pela atmosfera sensível — e quase poética — de como Kate Morton desenvolve a temática da inconfiabilidade da memória e da natureza parcial da história, aspectos demarcados o tempo todo na narrativa.

Fico interessada — intrigada, até — no modo como o tempo apaga as vidas reais, deixando apenas impressões vagas. O sangue e o espírito desaparecem, e só nomes e datas permanecem.

página 42

Quem narra o romance em primeira pessoa é Grace, sua versão de 98 anos. Apesar de algumas passagens trazerem o momento atual de sua vida, a maior parte se dá no passado, acompanhando os anos entre 1914 e 1924. O interessante desse artifício é como, o tempo todo, Kate Morton insere as implicações desse distanciamento temporal entre a Grace jovem e a idosa, especialmente por toda bagagem que a mais velha adquiriu no passar das décadas. Seu olhar sobre os acontecimentos, agora, não é o mesmo de quem os viveu, e ela se mostra ciente disso. 

As guerras tornam a história enganadoramente simples. Fornecem momentos de mudança muito claros, distinções muito fáceis: antes e depois, vencedor e vencido, certo e errado. A história verdadeira, o passado, não é assim. Não é plano nem linear. Não tem contornos. É escorregadio como um líquido; é infinito e desconhecido como o espaço. E é mutável: quando você pensa que enxerga um padrão, a perspectiva muda, uma outra versão é apresentada, uma lembrança há muito esquecida vem à tona.

página 285

O panorama histórico de A Casa das Lembranças Perdidas é muito bem desenvolvido, apresentando as mudanças, sobretudo na sociedade britânica, durante o período pré e pós Guerra. E, ao apresentar o contexto sócio-político da época, encontra meios também de desenvolver suas personagens, já que são diretamente afetadas por essas transformações. Ainda, a forma de como suas características são desenvolvidas aos detalhes permite uma maior absorção de suas motivações e escolhas.

Algo que muito me agradou foram os diversos paralelismos existentes no enredo. Kate Morton sabe antecipar com maestria determinados eventos através de outras situações semelhantes, estabelecendo certa simetria entre eles. Temas e eventos são repetidos e ressignificados, de forma que a compreensão de um permite também a compreensão do outro.

O trunfo de Kate Morton está, sem dúvidas, nos detalhes. A Casa das Lembranças Perdidas é um romance ricamente construído, daqueles livros para ser apreciado aos poucos. As histórias da autora não são para quem tem pressa ou busca uma maior agilidade, porque tudo se desenvolve entre minúcias — e é nessa característica que reside o destaque. O final, entretanto, é daqueles de se devorar conforme cresce a tensão narrativa e os mistérios se colocam na iminência de serem revelados. Fui surpreendida e impactada pelas descobertas, finalizando a leitura com o sabor agridoce de ter sofrido por seu desenrolar e, ao mesmo tempo, me deleitado com uma obra tão bem construída. 





Deixe o seu comentário

Minha Vida Literária

Caixa Postal 452

Mogi das Cruzes/SP

CEP: 08710-971

Siga nas redes sociais

© 2022 • Minha Vida Literária • Todos os direitos reservados • fotos do topo por Ingrid Benício