[Resenha] A Estrada Para São Paulo — Mariana Chazanas | Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
09

mar
2021

[Resenha] A Estrada Para São Paulo — Mariana Chazanas

Dois irmãos separados pela escravidão.
Uma chance de reencontro.
Desafiar a casa grande vai custar caro.
Mas depois de anos de servidão, obedecer custa muito mais.

Adeze levou anos para decifrar a própria história.
Mas não era difícil depois que se desfazia o emaranhado, uma vez desatados os nós de lembranças. Nada especial, nada diferente.
Nada que não acontecesse o tempo todo.
O que aconteceu foi:
Escravos africanos desembarcaram no porto de Santos, e foram levados para São Paulo em busca de melhores mercados.
Sinhá Ana e sinhá Carolina Rossi queriam quem lhes guardasse a casa e um vizinho foi por elas comprar um escravo. Negociou junto duas crianças tão fracas que saíram quase de graça, uma negrinha frágil e seu irmão menor.
A menina ficou para servir na casa.
O menino ele levou consigo.
Só isso.
Uma pequena transação que talvez nem constasse em documento.
Parecia tão maior em seus pesadelos.

 

Ficha Técnica

Título: A Estrada Para São Paulo
Autor: Mariana Chazanas
Editora: Publicação Independente
Número de Páginas: 467
Ano de Publicação: 2017
Skoob: Adicione
Compre: Amazon

 
 
 

Resenha: A Estrada Para São Paulo

A Estrada Para São Paulo é o romance histórico de Mariana Chazanas, publicado de maneira independente na plataforma KDP da Amazon.

Adeze e Onyema foram brutalmente trazidos para o Brasil quando crianças, a fim de serem escravizados. Após testemunharem a morte de seus pais e chegarem em uma terra desconhecida, são separados para servirem em lugares diferentes. Com o passar do tempo, a memória da vida anterior — e de quem eles próprios eram — vai se tornando cada vez mais um borrão distante.

Se um romance de formação é aquele no qual a trajetória de um personagem é acompanhada de sua infância à vida adulta, na qual compreendemos seu processo de transformação e amadurecimento a partir dos eventos a que é submetido, A Estrada Para São Paulo poderia se enquadrar nessa classificação, já que apresenta os anos de crescimento de ambos protagonistas. Porém, “romance de formação” não dá conta de tudo que o livro entrega, especialmente pela obra ser, também, um retrato doloroso — e necessário — do período de escravidão no Brasil, que impacta as dinâmicas sócio-culturais e econômicas do país até os dias de hoje. Compreender a escravidão com toda violência intrínseca a ela é fundamental para não se permitir que ela seja esquecida ou que seja descrita como mero “episódio histórico”.

Por isso, a leitura é brutal do início ao fim, sem tempo para alívio. Adeze e Onyema vivem em um período violento, e Mariana Chazanas não poupa o leitor, sendo fiel às crueldades que eles sentem na pele — sejam elas físicas, sejam emocionais. Parte da angústia está em observar a naturalização do horror e a desumanização dos personagens, postos como meros objetos em inúmeras situações. E se muito do que é dito a eles é absurdo, se a eles não é permitido sentir, apenas obedecer e servir, o absurdo é ainda maior quando se percebe semelhanças entre a época narrada e a nossa atual. Houve um momento em especial, em um diálogo entre Adeze e Júlia, que me remeteu às personagens de Na Corda Bamba, um romance contemporâneo, no que se refere à inconsciente expectativa de pessoas brancas por gratidão quando, em sua concepção, agem em prol de pessoas negras. É triste observar o quanto muita coisa ainda permanece igual, assim como é doloroso acompanhar as complexidades emocionais de cada personagem. As consequências de uma vida de abusos gera desdobramentos psicológicos profundos, nos quais a necessidade de afeto é muitas vezes suprida justamente pelos responsáveis pelas feridas. Dessa maneira, as relações de Adeze e Onyema com seus senhores são intensas e complicadas, nas quais violência e carinho estão embrenhadas de tal maneira que se torna impossível separar um do outro — o que torna tudo ainda mais cruel. Pelo mesmo motivo, as compreensões que os personagens às vezes têm de si, ainda mais quando contrapostas às perspectivas de outros negros, escravizados ou livres, são nebulosas, nem sempre percebendo a exploração vivida ou então concordando com os papeis a eles atribuídos.

Se a leitura em si é dolorosa, não se pode dizer o mesmo da escrita de Mariana Chazanas, pela qual fiquei apaixonada. Há sensibilidade em seu jeito de narrar e a literariedade é expressa em cada linha. Nada é posto de maneira óbvia, há um trabalho em se dizer as coisas de um jeito diferente e extremamente preciso, além de belo. Se eu sofria pelo conteúdo da narrativa, também me encantava por sua forma. Ainda, a escrita em terceira pessoa muitas vezes assume as vozes dos diferentes personagens, seja por ritmo de palavras, seja pela escolha de vocabulário. Há diversos momentos que retratam os processos mentais, como o esquecimento, por exemplo, assim como o uso dos nomes de Adeze e Onyema contrapostos ao que receberam de seus senhores — Mical e Benjamin — indica as questões de identidade por eles sentidas.

A Estrada Para São Paulo é certamente um dos melhores livros que li nos últimos tempos, tendo me tocado fundo por todos os seus aspectos. Apesar do sofrimento que a história proporciona, fiquei maravilhada com o trabalho literário da autora, assim como me deliciei com o cenário onde a trama é ambientada: foi uma experiência única caminhar, mentalmente, pelas ruas da cidade de São Paulo em outro século, imaginando os cenários tão conhecidos por mim hoje em dia a partir das descrições de como eram à época. Reforço que livros como esse são obras importantes para que os horrores da escravidão não sejam jamais esquecidos ou relativizados, mas fica o aviso de que a leitura pode ser ainda mais dolorosa para pessoas negras, no sentido de tocar em feridas que, para elas, são um lembrete constante da injustiça histórica que viveram nas mãos de pessoas brancas.





Deixe o seu comentário

2 Respostas para "[Resenha] A Estrada Para São Paulo — Mariana Chazanas"

RUDYNALVA CORREIA SOARES - 10, março 2021 às (01:10)

Aione!
Importante vermos retratos em um livro nacional, toda a saga da época da escravidão.
Não digo em relação ao sofrimento que eles passaram, mas na evolução com que tudo acontece em termos de agressões físicas e psicológicas.
Foi uma época cruel ou não.
cheirinhos
Rudy

Thaís - 11, março 2021 às (18:22)

Já li e simplesmente virou um dos meus livros preferidos da vida 💙

Minha Vida Literária

Caixa Postal 452

Mogi das Cruzes/SP

CEP: 08710-971

Siga nas redes sociais

© 2021 • Minha Vida Literária • Todos os direitos reservados • fotos do topo por Ingrid Benício