[Resenha] Na corda bamba — Kiley Reid - Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
15

jan
2021

[Resenha] Na corda bamba — Kiley Reid

Certa noite, num supermercado de um bairro rico, Emira Tucker, uma jovem negra que trabalha como babá, é abordada por um segurança que a acusa de ter sequestrado Briar, a garotinha branca
que está com ela. Uma pequena multidão se reúne, alguém faz um vídeo da situação e a comoção só termina quando o pai da criança aparece.

Alix, a mãe de Briar, fica chocada com o ocorrido. Bem-sucedida e dona de uma marca envolvida na luta pelo empoderamento feminino, ela decide que Emira merece justiça e resolve fazer de tudo para que isso aconteça.

A própria Emira, porém, só quer deixar a história para trás. Aos 25 anos, trabalhando sem carteira assinada e prestes a perder o seguro-saúde, ela está às voltas com os desafios da vida adulta e a última coisa que quer é ser exposta pela divulgação dessas imagens.

Mas, quando uma parte do passado de Alix vem à tona, ela e Emira são confrontadas com verdades que podem mudar para sempre o que elas pensam uma sobre a outra e sobre si mesmas.

Um romance essencial para os tempos atuais, Na corda bamba fala sobre como o racismo e o privilégio afetam as relações interpessoais no dia a dia. Com uma narrativa vibrante e provocativa, é também uma reflexão sobre como a necessidade de “fazer a coisa certa” pode nos colocar, às vezes irreversivelmente, no caminho errado.

 

Ficha Técnica

Título: Na corda bamba
Título original: Such A Fun Age
Autor: Kiley Reid
Tradução: Roberta Clapp
Editora: Arqueiro
Número de Páginas: 320
Ano de Publicação: 2020
Skoob: Adicione
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Resenha: Na corda bamba

Na Corda Bamba, de Kiley Reid, foi o vencedor na categoria Romance de Estreia do Goodreads Choice Award em 2020. Publicado pela editora Arqueiro no Brasil, conta com a tradução de Roberta Clapp.

Emira é uma jovem negra que trabalha como babá para a família Chamberlain, branca. Em uma noite, ela é abordada por um segurança em um supermercado, acusada de ter sequestrado Briar, garotinha de quem cuida. O incidente choca Alix, mãe de Briar e dona de uma marca de empoderamento feminino, porém Emira só quer deixar tudo para trás. Por não trabalhar com carteira assinada e prestes a perder o seguro desemprego, ela teme que a exposição acabe por prejudicá-la, ainda que Alix esteja disposta a tudo para fazer justiça.

Em terceira pessoa, os capítulos se alternam em narrativas que trazem as perspectivas ora de Emira, ora de Alix, o que é essencial não apenas na construção da tensão do romance, mas, principalmente, para contrastar duas realidades opostas. Isso fica claro inclusive na linguagem, muito bem adaptada na tradução, uma vez que o vocabulário de Emira e de suas amigas tende a identificá-las como um grupo de mulheres negras, diferente do empregado por Alix e seu meio social predominantemente branco e rico. De qualquer maneira, a escrita como um todo é ágil e envolvente e, aliada à própria tensão crescente, permite uma leitura voraz, quase impossível de ser interrompida. Li o livro em apenas um dia e senti todo seu impacto ao finalizá-lo.

Centrado em situações do dia-a-dia, Na Corda Bamba debate questões de classe e raça. O trunfo de Kiley Reid não está em simplesmente apontar o racismo sofrido por Emira em suas diferentes manifestações, mas como ele é compreendido — ou não — pelos brancos que o difundem. Ao trazer a perspectiva de Alix, o leitor tem acesso aos seus conflitos emocionais e às suas boas intenções, que ainda assim expressam o racismo sem que ele seja percebido. Dessa maneira, fica claro como esse é um problema estrutural, cujas aparições silenciosas são tão prejudiciais quanto às assumidamente declaradas.

Interessante observar, também, o caráter irônico utilizado na construção de Alix e dos demais personagens criticados na obra. A branquitude é muito bem representada, especialmente por suas contradições. Alix a todo momento se afirma como um tipo de pessoa e expressa sua ânsia em não ser como aqueles que ela repudia. Contudo, a forma como ela se porta com as filhas, a visão que tem do próprio corpo e muitas de suas atitudes aparentemente inocentes são componentes sutis — e críticos — que apontam para uma construção mais complexa, de uma individualidade arraigada em vaidades e privilégios que a aproximam justamente de quem ela condena. 

A relação de Emira com Briar é um dos pontos mais emocionantes e encantadores da leitura, ainda mais em paralelo com a relação de Alix com Briar. As conclusões de Emira sobre isso, sobretudo ao final, são daquelas belamente dolorosas, não apenas pela óbvia carga sentimental da ligação entre as duas, mas também pela consideração social, impossível de ser retirada da equação. Importante dizer que Emira é uma personagem sólida, com desejos e conflitos próprios, muito mais do que apenas um objeto sobre o qual o racismo da história se manifesta. Enfrentando dilemas próprios de sua fase de vida — a transição para a fase adulta —, representa muito bem o quanto nem sempre é claro o que desejamos fazer, e como a pressão para se descobrir isso aumenta com as responsabilidades e cobranças batendo à porta. 

Em linhas gerais, Na Corda Bamba foi uma leitura viciante e muitas vezes incômoda. Com personagens e situações complexas, sutilmente construídas a partir de um olhar sensível e afiado, é daqueles livros tidos como necessários, já que aborda de maneira tão acertada problemáticas de classe e raça, nem sempre percebidas, nas dinâmicas sociais.





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2 Respostas para "[Resenha] Na corda bamba — Kiley Reid"

RUDYNALVA CORREIA SOARES - 15, janeiro 2021 às (23:13)

Aione!
É a tal da hipocrisia disfarçada entre a retórica e a prática.
Deve mesmo ser um leitura intrigante e ao mesmo tempo exaustiva, por mostrar abertamente as diferenças entre as raças e como isso tudo é bem acentuado pela sociedade, através das personagens.
cheirinhos
Rudy

Angela Cunha - 16, janeiro 2021 às (08:11)

Esse livro chegou chegando e acredito que fora a parte da lição mais uma vez necessária contra o racismo, trouxe também isso da “vantagem em ser branco” num país.
Será mesmo uma luta contra o racismo ou um colocar uma coroa de santidade?
Não sei, acho necessário demais essas reflexões e com certeza, quero muito ler esse livro!!!
Beijo

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