[Resenha] Lobo de Rua - Jana P. Bianchi | Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
31

mar
2020

[Resenha] Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

Título: Lobo de Rua
Autor: Jana P. Bianchi
Editora: Dame Blanche
Número de Páginas: 130
Ano de Publicação: 2016
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Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos os outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.
Basta pagar o preço.

Jana P. Bianchi chega com lobisomem em uma mão e uma teoria de transmissão da licantropia na outra, criando assim Lobo de Rua, um conto espetacular que promete muita coisa boa sobre a autora.

Raul, garoto em situação de rua, acredita já ter a dose suficiente da infelicidade, afinal, sendo alguém invisível e desgraçado para a sociedade, ele não espera muito mais de seu futuro. Até que Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se mais do que apenas um lobo de rua, mas um sedento e perigoso lobisomem em desenvolvimento. Tito Agnelli compartilha da desesperança de Raul, conhece a sensação da transformação, de ser rasgado todo mês para a criatura ser liberada. É terrível, cruel. Assim, compadecido com o sofrimento do jovem filhote, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição e é ele quem vai nos conduzir para dentro desse mundo, nos guiando até a Galeria Creta, lugar em São Paulo onde eles e outros ao menos podem ser bem-vindos nas noites de lua cheia.

Citei na resenha de O Capeta-Caolho Contra A Besta-Fera, outro conto de lobisomem, que era difícil trazer algo muito usado na literatura, afinal, onde é possível inovar, sem deixar repetitivo para o leitor? Jana P. Bianchi fez bem ao mostrar que a doença poderia ser sexualmente transmissível, que um lobisomem se criaria e transmitiria a condição através do contato sexual com uma fêmea. Acho que esses detalhes sempre enriquecem uma mitologia frequentemente usada e transformam a leitura em uma experiência diferente para o leitor.

Além dessa ideia, ela também inova jogando um mocinho em ambientação fora do nosso comum, já que Raul está em situação de rua. Não me recordo quantas histórias, se é que li alguma antes, com um protagonista que não morava ou no seu apartamento ou no dos amigos/pais. Criamos essa empatia logo de cara, pois podemos imaginar aquela pessoa ao relento, sofrendo com toda a dor física e mental, o medo constante de alguém que se abriga debaixo das marquises. O sofrimento se intensifica por Raul ser um garoto, um menino que agora precisa aprender a sobreviver a uma transformação visceral e doentia, que aliás, são cenas descritivas pesadíssimas do conto. Aqui Jana não mede palavras e nos mostra como realmente é terrível deixar de ser humano.

A narrativa focada em Lobisomens traz também algumas pinceladas de um mundo fantástico criado pela autora, estando entre criaturas secundárias os Minotauros, por exemplo. Sendo assim, temos uma nova versão da licantropia, mostrando o desenvolvimento da maldição, mas também deixando aquele gostinho de que muita coisa boa pode vir do mundo de Raul e Tito.

Lobo de Rua tem um apelo descritivo forte, por vezes fiquei com o estômago embrulhado, pensando no sofrimento de Raul e Tito. Em outros momentos, me peguei pensando até onde eu iria pelo bem de outra pessoa e se isso de fato é algo bom. Fica a dica.





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4 Respostas para "[Resenha] Lobo de Rua – Jana P. Bianchi"

Ana I. J. Mercury - 31, março 2020 às (22:47)

Oi, Francine
Amei sua resenha, já quero esse também!
Coitado do Raul.
Deu pra ver que a autora usoua fantasia para nos fazer pensar e questionar sobre certas condições de vida, e como podemos ajudar e não marginalizar.
Logo lerei com certeza!
bjs

Elizete Silva - 31, março 2020 às (23:05)

Olá! Não dá para negar que o enredo é inovador e mesmo em poucas páginas, a leitura parece ser daquelas que marca, mas não sei se é o meu tipo de leitura, já que cenas mais fortes e descritivas demais sempre me deixam desconfortável e com aquela vontade louca de fechar os olhos, daí fica bem complicado continuar a leitura neh.

ANA PAULA SANTOS MOREIRA - 31, março 2020 às (23:58)

Outra história com lobisomem, adorei. Da para ler rapidinho e acho que vale a pena curti. Não lembro de ter lido livros sobre lobisomens, vale a pena.

Angela Cunha - 01, abril 2020 às (07:39)

Desgraça pouca é bobagem..rs
Puxa, eu amo muito tudo isso e não falo somente por contos não,mas por essa inovação na forma de apresentar um conto assim, em forma também da dor da solidão, da infelicidade e do ser ali, invisível, como tantos são hoje em dia.
Há uma crítica social por trás e isso me encanta.
Bom ver esse resgate dos lobisomens.
Espero conferir!
Beijo

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