[Resenha] Um Casamento Americano — Tayari Jones | Minha Vida Literária
16

jul
2019

[Resenha] Um Casamento Americano — Tayari Jones

Título: Um Casamento Americano
Título original: An American Marriage
Autor: Tayari Jones
Tradução: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Número de Páginas: 288
Ano de Publicação: 2019
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Os recém-casados Celestial e Roy são a personificação do sonho americano e do empoderamento negro. Mas um dia os dois são separados por circunstâncias imprevisíveis: Roy é condenado a doze anos de prisão por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu. Mesmo impetuosa e independente, Celestial é dominada pelo desamparo e busca conforto nos braços de um amigo de infância. Quando a condenação de Roy é anulada repentinamente depois de cinco anos, ele sai da prisão pronto para retomar a vida com a esposa. Um casamento americano lança um olhar perspicaz ao coração e à mente de três pessoas unidas e separadas por forças além do seu controle, e que precisam lidar com o passado enquanto seguem – com esperança e dor – em direção ao futuro.

Um Casamento Americano, de Tayari Jones, é daqueles livros agridoces: apesar de envolvente e belamente escrito, não saímos da leitura imunes da angústia que ela proporciona. 

Celestial e Roy estavam casados há pouco mais de um ano quando ele foi preso injustamente, acusado de ter estuprado uma mulher. Roy é condenado a 12 anos de prisão, mas, depois de 5 anos encarcerado, ele consegue uma anulação e é enfim libertado. Sua vida anterior, porém, não mais existe. Nem seu casamento.

Não consigo pensar em Um Casamento Americano sem associá-lo a palavras como “triste” e “real”, os motivos pelos quais a leitura tanto me conquistou e tanto me doeu. O trunfo de Tayari Jones foi conseguir mesclar com maestria os conflitos emocionais a que as personagens são submetidas ao contexto social em que vivem. Esse é um livro sobre personagens precisando encontrar uma nova forma de viver quando o impensável aconteceu com elas, mas é também um retrato do racismo nos EUA — não muito diferente de outros lugares do mundo. De forma natural e constante na narrativa, a autora pontua as diferenças sofridas na vida entre brancos e negros — e mesmo entre negros de diferentes tons de pele, trazendo, ainda que de forma sutil, a problemática do colorismo — o que por si só gera angústia pelas injustiças demonstradas. E essa sensação, aliada às tramas particulares, intensifica as emoções despertadas pela narrativa. 

As três personagens centrais — Celestial, Roy e Andre — são construídas em profundidade e com coerência, fazendo de cada um figuras muito humanas. É possível amá-las e odiá-las, porque, como qualquer pessoa, elas estão sujeitas a erros e acertos. Achei incrível como a autora soube desenvolvê-las inclusive em suas contradições. De forma sutil, Tayari Jones vai dando pistas a respeito da dinâmica dos relacionamentos entre elas que independem da prisão de Roy, o que corresponde bastante com a forma de como muitas relações acontecem: paixões podem ocultar possíveis incompatibilidades. Também, o fato de cada uma ter sua própria narrativa em primeira pessoa faz com que o leitor tenha acesso a elas de forma mais íntima, possibilitando uma maior empatia em suas escolhas.

Embora eu tenha ficado admirada com a rica construção dos personagens, sem dúvida o que mais me sensibilizou foi a reflexão que Um Casamento Americano me proporcionou, aliada a escrita em si da autora — bela e poética em muitos momentos da narrativa. É simplesmente devastador constatar o quanto acontecimentos sobre os quais não tem nenhum controle podem alterar de forma tão irremediável nossos destinos. Celeste e Roy tiveram suas vidas arrancadas de si e a eles só sobrou a opção de lidar com a alternativa: eles buscam ter esperança em meio a dor e seguem em frente apesar de arrasados. Dessa maneira, a leitura foi extremamente real para mim, pois quantas vezes não nos deparamos com situações exatamente assim? O quanto não sofremos por querer controlar aquilo que não está em nosso alcance? 

Um Casamento Americano me ganhou em um primeiro momento por ter sido uma leitura extremamente envolvente, daquelas que eu não queria interromper até descobrir o desfecho das personagens. Porém, mais do que isso, a obra de Tayari Jones me conquistou pela maneira verdadeira e real com a qual as personagens e suas histórias são desenvolvidas. Esse é um daqueles livros para no fazer pensar — seja em nossas vidas, seja nos aspectos desiguais de nossa sociedade — e é também daqueles de nos fazer sentir — as dores das personagens e, também, as nossas próprias. Em resumo, é um dos meus tipos favoritos de leitura.





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2 Respostas para "[Resenha] Um Casamento Americano — Tayari Jones"

Angela Cunha - 17, julho 2019 às (07:48)

Não vejo a hora de poder conferir este livro. Histórias assim nos tiram da zona de conforto e nos jogam literalmente na realidade da vida e oh, isso não é fácil não.
A gente lê e vê sobre preconceito há séculos, infelizmente. E por tudo que vivemos hoje em dia, isso nunca terá fim. O amor é o maior dos sentimentos, sempre será. Mas suporta tudo??
Uma separação tão dolorosa, questionamentos e incertezas.
Com certeza, preciso urgente conferir a obra!!
Beijo

Tereza Cristina Machado - 17, julho 2019 às (18:30)

Eu desde quando li a sinopse me interessei por esse livro, agora então ele está favoritado para futura compras.
Amo histórias reflexivas, já senti a angústia daqui, a injustiça … aiiii quero muito, grata pela resenha. 😉

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