[Resenha] Identidade — Nella Larsen - Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
08

mar
2022

[Resenha] Identidade — Nella Larsen

Irene Redfield e Clare Kendry têm algo em comum: ambas são mulheres negras de pele clara que podem se passar por brancas. Essa, porém, é a única similaridade entre elas. Após perderem contato durante a adolescência,as duas se reencontram por acaso em uma cafeteria de um hotel em Chicago. Um encontro que muda para sempre a dinâmica entre as duas mulheres, suas famílias e suas comunidades.
Irene parece ter tudo que poderia desejar. Casada com Brian, um médico proeminente, eles são donos de uma confortável casa no Harlem, onde criam seus dois filhos. O trabalho de organizar bailes de caridade em que celebra toda a riqueza da cultura afro-americana dá a Irene um propósito e um senso de responsabilidade. Sua única preocupação é o desejo insistente do marido em se mudar para o Brasil, um país onde, segundo ele, não há racismo.
Clare Kendry, por outro lado, vive no limite. Após perder o pai aos 14 anos, saiu da vizinhança negra em que vivia para ir morar com as tias e começou a se passar por branca, mantendo sua verdadeira ancestralidade miscigenada em segredo para todos, principalmente para o homem racista com quem se casou. No entanto, após o reencontro e à medida que começa a se envolver cada vez mais na vida de Irene, Clare vê a energia da comunidade que deixou para trás, e sua vontade ardente de retornar a ela ameaça a farsa cuidadosa que é sua vida.
Obra atemporal e clássico literário, Identidade oferece um vívido retrato da sociedade americana nos anos 1920 e discute não apenas a questão de raça, mas também de classe e gênero. Através de uma brilhante narrativa e de personagens complexos, Nella Larsen prova que ser leal às próprias origens não é apenas um ato de orgulho, mas também de coragem.

 

Ficha Técnica

Título: Identidade
Título original: Passing
Autor: Nella Larsen
Tradução: Rogerio W. Galindo
Editora: HarperCollins Brasil
Número de Páginas: 160
Ano de Publicação: 2020
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Resenha: Identidade

Identidade é o clássico de Nella Larsen, nome importante do movimento Renascimento do Harlem. Publicado originalmente em 1928, chegou ao Brasil pela HarperCollins em 2020, com tradução de Rogerio W. Galindo e posfácio de Ryane Leão.

Irene Redfield e Clare Kendry são mulheres negras de pele clara, que podem se passar por brancas. Amigas na adolescência, tiveram seus caminhos separados após a trágica morte do pai de Clare, que se mudou para morar com as tias. Mais de dez anos depois, se reencontram. Na vida adulta, Irene é casada com um homem negro e é moradora do Harlem, onde celebra suas raízes e se orgulha delas. Clare, por outro lado, é casada com um branco, racista, que não sabe que ela é negra. A partir do reencontro, a vida de ambas é impactada por conta dos desdobramentos que as diferentes percepções sobre a outra despertam em cada uma.

O livro é dividido em três partes — Encontro, Reencontro e Conclusão —, cada uma com quatro capítulos. É uma obra curta, com menos de 200 páginas, mas cujas camadas narrativas fazem dela densa e capciosa, sobretudo pelos aspectos psicológicos presentes. Identidade se desenvolve principalmente na complexidade de suas personagens e nas relações entre elas, mais do que nos eventos externos apresentados. Em terceira pessoa, é narrado pela perspectiva de Irene, cujos pensamentos e emoções aparecem por meio do discurso indireto livre.

Irene e Clare são complexas porque assim são também as questões que as atravessam. As dinâmicas de classe e raça que as envolvem não são de simples compreensão, e Nella Larsen as abordou com maestria. Ao mesmo tempo em que há um fascínio entre as protagonistas, que beira a tensão sexual, há também um espelhamento que desperta repulsa e inveja, identificação e negação. Por um lado, Clare passa a se sentir atraída pela forma de como Irene lida com a própria ancestralidade, o que desperta nela um desejo de se conectar também com essas raízes e a leva a questionar sua identidade, tão imersa na vivência como branca. Por outro, Irene tem sua estabilidade questionada, uma vez que a proximidade com Clare a faz se sentir ameaçada em diferentes aspectos. A autora trabalha tão bem tudo isso que constrói uma tensão crescente, que culmina no fim abrupto, surpreendente e completamente angustiante de Identidade. Contudo, o fim não é uma conclusão; ao contrário, abre margens para inúmeros questionamentos, especialmente por seu caráter dúbio e não elucidado.

Algo que me fez refletir bastante foi a escolha de títulos. Na tradução, Identidade soa como algo mais estabelecido — embora a construção de qualquer identidade não seja concreta, linear nem muito menos estável —, que reflete quem Irene e Clare são — ou almejam ser. No original, Passing traz a ideia da fluidez, do movimento, do mutável, cuja tradução literal não funcionaria tão bem no português. Gosto muito de ambos os títulos, e acredito que, em conjunto, trazem diferentes aspectos da obra, sendo os dois muito pertinentes a ela.

Em linhas gerais, Identidade não foi uma leitura voraz, mas certamente instigante. Fiquei encantada pelo sutil desenvolvimento psicológico das personagens, bem como pela maneira como as tantas críticas sociais são incluídas na narrativa, especialmente em meio a um cenário histórico que, embora não enfatizado, traz um retrato preciso da época e da sociedade estadunidense da década de 1920 — e o quanto revela questões que continuam tão atuais. Uma leitura dolorosa e perturbadora, mas também primorosa e necessária. 

Em relação à adaptação disponível na Netflix, o filme é bastante fiel à obra original em termos de enredo e em como os aspectos psicológicos são apresentados. Inclusive, o final consegue manter a ambiguidade do livro mesmo com seu caráter visual, um trunfo de Rebecca Hall, diretora. As atuações de Tessa Thompson e Ruth Negga, além de brilhantes, revelam muito bem as tensões e a atração entre Clare e Irene. Destaque também para o formato 4:3 das imagens, em vez do atual 16:9 (widescreen) que, juntamente com a fotografia em preto e branco, traz o caráter clássico de Identidade. Há também outra camada interpretativa e simbológica dessa escolha. Em primeiro lugar, o formato 4:3 é mais limitado do que o widescreen em termos do que pode ser visto, sugerindo que  nem tudo no filme está ao alcance dos olhos. Sobre o aspecto monocromático, para além do paralelo entre preto e branco, a coloração desprovida de outros tons, embora mais simples, torna as imagens menos detalhadas e com nuances menos definidas — exatamente como tudo na história, em que nada é de simples compreensão ou de fácil julgamento. 





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Uma resposta para "[Resenha] Identidade — Nella Larsen"

Ray Cunha - 07, maio 2022 às (17:06)

Olá,
Gostei bastante da sua resenha. Descobri esse livro tem pouco tempo e já estava louca para ler, mesmo não sabendo nada sobre ele.
Inclusive, desconhecia a adaptação e já quero assistir também.

Beijo!
http://www.amorpelaspaginas.com

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