[Resenha] Um Milhão de Pequenas Coisas — Jodi Picoult | Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
11

mar
2021

[Resenha] Um Milhão de Pequenas Coisas — Jodi Picoult

Ruth Jefferson é enfermeira obstetra com mais de vinte anos de experiência em um hospital de Connecticut. Durante seu turno, Ruth inicia exames de rotina em um recém-nascido, mas instantes depois é transferida para cuidar de outro paciente. Os pais do bebê são supremacistas brancos e não querem que Ruth, que é negra, toque em seu filho. O hospital atende ao pedido deles, mas, no dia seguinte, o bebê sofre um problema cardíaco enquanto Ruth está sozinha no berçário. Ela obedece às ordens ou intervém?
Ruth hesita antes de realizar os procedimentos de reanimação e, como resultado, é acusada de um crime grave. Kennedy McQuarrie, uma defensora pública branca, aceita seu caso, mas dá um conselho inesperado: ela insiste que mencionar raça no tribunal não é uma boa estratégia. Confusa com o conselho, Ruth tenta manter a vida o mais normal possível para sua família ― especialmente para seu filho adolescente ― quando o caso se torna sensação na mídia. À medida que o julgamento avança, Ruth e Kennedy devem ganhar a confiança uma da outra e perceber que o que lhes foi ensinado a vida toda sobre os outros ― e elas mesmas ― pode estar errado.

 

Ficha Técnica: Um Milhão de Pequenas Coisas

Título: Um Milhão de Pequenas Coisas
Título original: Small Great Things
Autor: Jodi Picoult
Tradução: Cecília Camargo Bartalotti
Editora: Verus
Número de Páginas: 518
Ano de Publicação: 2021
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Resenha escrita

Um Milhão de Pequenas Coisas é o vigésimo quinto romance de Jodi Picoult, cujos direitos de publicação no Brasil atualmente são da editora Verus. O livro ganhará uma adaptação para os cinemas, que está em desenvolvimento. A produção é de Marc Platt, de La La Land, e será estrelada por Viola Davis e Julia Roberts.

Ruth Jefferson é enfermeira obstétrica há mais de vinte anos. Funcionária exemplar, é afastada dos cuidados de Davis, bebê recém nascido de um casal de supremacistas brancos, por ser negra. Por ter recebido ordens de seus superiores para não tratar a criança, ela hesita quando Davis tem complicações e ela é a única por perto para prestar atendimento. Mesmo após ser socorrido, Davis não resiste e falece. Ruth é acusada, sendo responsabilizada pela morte, e é levada a julgamento. Kennedy, defensora pública, assume o caso, mas não pretende embasá-lo em racismo, justificando que isso prejudicaria Ruth.

Jodi Picoult é uma daquelas autoras capazes de me envolver como poucas. Sua habilidade narrativa é tanta que se torna impossível desgrudar das páginas, com o sentimento de urgência em relação ao que vai acontecer sentido no peito. Com Um Milhão de Pequenas Coisas não foi diferente: fui cativada desde o primeiro parágrafo e, quando encerrei a leitura, senti que precisaria de um tempo para digeri-la.

Um fator para os livros da autora serem memoráveis é o fato de ela partir de conflitos morais e éticos em situações extremamente complicadas. Por isso, suas personagens são complexas, justamente por serem desenvolvidas em meio a essas questões. O tema principal de Um Milhão de Pequenas Coisas é o racismo e a autora se vale das narrativas em primeira pessoa de Ruth — negra —, Kennedy — branca — e Turk — skinhead

Ruth é negra de pele clara e tentou a vida toda se encaixar no sistema conduzido por pessoas brancas, sem conseguir fazer parte dele e sem estar inserida, de fato, na comunidade negra. Sua vivência como mulher negra foi desenvolvida com sensibilidade e embasada em muita pesquisa, uma vez que Jodi Picoult é branca. Kennedy, por sua vez, retrata muito da perspectiva da própria autora, que se vale de sua voz para demonstrar o quanto o racismo vai além das questões de preconceito explícito ou de atos abertos de discriminação. Ainda que a advogada de defesa não se considere uma pessoa ruim ou preconceituosa, ela faz parte de um sistema que a privilegia, que permite a ela o privilégio de não se pensar em questões de raça, já que não é prejudicada. Por fim, a narrativa de Turk é de se embrulhar o estômago. Somos jogados em sua visão de mundo deturpada e absurda, em um mundo construído pela raiva e pela sede de poder. Para compor o personagem, Jodi Picoult conversou com ex-skinheads, de maneira a representar esse universo com mais fidelidade. Apesar do incômodo que essas passagens me causaram, elas tornam a leitura mais rica e permitem certo entendimento do que move supremacistas brancos. Não senti nenhum tipo de empatia ou que algo de suas atitudes pudesse ser justificada, mas consegui encontrar explicações para seus atos que vão além de uma insuficiente noção de maldade: estamos falando de pessoas motivadas por uma raiva não administrada, que se tornam extremamente nocivas ao se apegarem em ideais inaceitáveis. Ao mesmo tempo, precisamos lidar com os sentimentos contraditórios despertados pelo fato de Turk ser uma figura desprezível, mas, também, um pai que lida com a morte do filho recém-nascido. Assim, Um Milhão de Pequenas Coisas causa sentimentos múltiplos e misturados, de maneira a ser difícil separar um do outro e até mesmo compreender o que está sendo sentido. 

A pesquisa de Jodi Picoult se estende, também, para as profissões de Ruth e Kennedy, a fim de que os universos dos hospitais e dos tribunais fossem devidamente retratados. Foi ótimo acompanhar especialmente o segundo, sobretudo por Kennedy ser funcionária pública e a dinâmica de seu trabalho ser diferente da advocacia particular — ambas bastante distantes da minha realidade. Adorei toda preparação para o julgamento e como essas cenas fizeram da leitura ainda mais ágil e interessante, assim como o julgamento em si transborda a tensão típica do clímax da narrativa. Romances que se passam em tribunais sempre me cativam e me deixam completamente imersa na leitura nesses instantes, e a experiência com Um Milhão de Pequenas Coisas não foi diferente nesse sentido.

Minha única crítica ao romance é seu capítulo final, que funciona como uma espécie de epílogo. Há ali uma espécie de redenção que eu preferiria não ter lido, por temer o quanto ela possa ressignificar acontecimentos anteriores — e porque eu não estava disposta a essa resolução. A autora, mais uma vez, se inspirou em acontecimentos reais; porém, em minha visão, eles representam uma exceção, não a regra. 

É importante a nota final que Jodi Picoult traz, estabelecendo sua posição como mulher branca, a partir de onde desenvolveu a obra. Essa perspectiva aparece nos detalhes e é fundamental que esteja afirmada. Discussões sobre raça são complexas, e é necessário cuidado para que não haja apropriação de lugares de fala — motivo pelo qual ela também justifica o título, uma paráfrase de um discurso de Martin Luther King: “Se eu não puder fazer coisas grandes, posso fazer pequenas de forma grandiosa”. A autora, consciente de seu lugar, dirige-se sobretudo ao seu público alvo, também branco, propondo a autocrítica indispensável à mudança de ação — que só pode se dar quando há conscientização. Embora o ideal fosse que essa consciência partisse da atenção dada às vozes negras, dando valor a elas, o racismo está presente também nesse sentido, de maneira que muitas pessoas brancas se recusem a ouvir alguém diferente de quem são. Assim, é primordial que também conversemos entre nós. 

Para finalizar, Um Milhão de Pequenas Coisas me proporcionou uma das melhores leituras que fiz até este momento do ano por ter me transportado por completo para dentro da história, me desconectando da minha realidade. Livros que me causam emoções múltiplas e uma leitura voraz costumam ser os que mais me marcam, e tenho certeza de que carregarei mais essa obra de Jodi Picoult comigo.





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2 Respostas para "[Resenha] Um Milhão de Pequenas Coisas — Jodi Picoult"

Eliane - 12, março 2021 às (10:14)

Amei a premissa do livro .
Náo conhecia essa autora mas já vou procurar saber mais .
E um enredo que deve prender muito a nossa atenção e fiquei curiosa para saber como a autora resolveu toda essa questáo.

RUDYNALVA CORREIA SOARES - 16, março 2021 às (02:12)

Oi Aione!
Dizem que a autora é ótima, tenho um livro dela aqui e quero poder ler.
Vai mesmmo ser uma grande produção com atrizes sensacionais.
Situação complicada, vão ter situações bem difíceis.
Bom quando a história é bem construída.
Horrível essa visão de supremacia branca.
Deve ser u m livro ótimo como aprendizado suobre o preconceito.
cheirinhos
Rudy

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