[Resenha] Vozes Negras — Maria Ferreira; Flor, Priscila; Isa Souza; Pétala Souza e Amanda Condasi | Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
09

jun
2020

[Resenha] Vozes Negras — Maria Ferreira; Flor, Priscila; Isa Souza; Pétala Souza e Amanda Condasi

“Vozes Negras” é um livro que se faz resistência. Um grito de liberdade de mulheres duplamente silenciadas (pelo gênero e pela cor) que reivindicam seu protagonismo e ampliam suas vozes pela escrita. Através de ilustrações da Limão e quatro histórias de ficção, as autoras Amanda Condasi, Flor, Priscila, Isa Souza, Maria Ferreira e Pétala Souza narram a trajetória de personagens em busca de seus sonhos e de se verem representadas.

 

Ficha Técnica

Título: Vozes Negras
Autor: Maria Ferreira; Flor, Priscila; Isa Souza; Pétala Souza e Amanda Condasi
Editora: Se Liga
Número de Páginas: 161
Ano de Publicação: 2019
Skoob: Adicione
Compre: eBookFísico

 
 

Resenha: Vozes Negras

Vozes Negras é a antologia de contos da editora Se Liga, escrita, ilustrada e revisada por pessoas negras. A obra, inicialmente impressa via financiamento coletivo em 2019, está disponível em eBook na Amazon e em formato físico no site da editora.

Os contos são de autoria de Maria Ferreira, responsável pelo “Coincidências”; Flor, Priscila, que escreveu o “Carimbos e Memórias”; Isa Souza e Pétala Souza, que assinam juntas o “Não existem sinônimos suficientes para o futuro”; e Amanda Condasi, autora do “Na ponta dos sonhos”. Além disso, há o prefácio de Ana Rosa, co-autora de Você Por Aqui?, que reflete sobre a importância da representatividade negra nas histórias, além do pouco espaço que elas recebem no mercado editorial.

Assim como as autoras, os contos de Vozes Negras são diversos em estilos e conteúdos, embora todos reflitam a vivência de pessoas pretas. Em “Coincidências”, Maria Ferreira fala sobre a solidão da mulher negra através de Amara, uma jovem universitária que sai da Bahia para estudar em São Paulo e conhece um rapaz, por quem acaba se apaixonando. Com uma escrita leve e convidativa, a autora traz um cenário bastante atual, repleto de referências de artistas negros. O ponto alto da leitura é a forma de como ela trabalha as emoções e constrói a narrativa avisando o leitor o tempo todo de que a conclusão da história não será romântica. Mesmo que o foco do conto seja a protagonista, é possível também enxergar sobre a vivência do homem negro e seus conflitos.

“Carimbos e Memórias”, por sua vez, traz a trajetória de Glória, que conquistou sua profissão dos sonhos. Flor, Priscila mescla passado e presente, tornando possível enxergar, na mulher do presente, a menina do passado, tão influenciada e motivada pela leitura de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Com isso, o conto reforça a importância da representatividade, de se reconhecer — ou reconhecer semelhantes — em outras histórias e fazer disso uma motivação.

Já “Não existem sinônimos suficientes para o futuro”, conto mais longo e exigente da antologia, foi o que mais me surpreendeu. Isa Souza e Pétala Souza criaram uma ficção científica distópica futurista, na qual o mundo existe após uma contaminação viral que colocou a população em isolamento social total — o que traz ainda mais pontos de contato com nossa realidade, ainda que tenha sido escrito anteriormente à pandemia do Coronavirus. A sensibilidade da escrita aliada às diversas referências do texto fazem da narrativa complexa e encantadora, que se alterna entre os pontos de vista das duas protagonistas, Enyin e Aleduma.

Por fim, “Na ponta dos sonhos” de Amanda Condasi traz a trajetória emocionante de Dandara, jovem negra, moradora do Complexo do Salgueiro em São Gonçalo e que sonha em ser bailarina desde que encontrou com sua mãe, no lixo, uma sapatilha de ponta. Dandara treinou a vida toda sozinha, com o auxílio de vídeos na Internet, e suas dificuldades ficam evidentes, seja pelo racismo sofrido na escola, seja pelo descaso das operações policiais em sua comunidade, que coloca a vida de inocentes em risco — como aconteceu há poucas semanas com João Pedro Mattos, baleado dentro de casa no mesmo Complexo onde a personagem vive. As conquistas da protagonista são um grito de esperança aos jovens que com ela se identificam, fechando a antologia com esse poderoso sentimento.

Em linhas gerais, Vozes Negras proporciona uma leitura de extrema importância por amplificar vozes que são historicamente silenciadas. São histórias rápidas e prazerosas de se ler, com aspectos próprios que fazem delas singulares. Mesmo que proporcionem leituras ágeis e de narrativas, em sua maioria, leves, são histórias de peso, com relevância que merece e precisa ser reconhecida.





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9 Respostas para "[Resenha] Vozes Negras — Maria Ferreira; Flor, Priscila; Isa Souza; Pétala Souza e Amanda Condasi"

Tereza Cristina Machado - 09, junho 2020 às (18:45)

Eu baixei o ebook… a edição física pelo que vi foi muito bem elaborado.
No atual momento ler sobre vozes e identidade agrega muito significado. Quero muito fazer essa leitura e fico grata aqui por todas as vezes que vc avisa sobre os e-books

RUDYNALVA CORREIA SOARES - 09, junho 2020 às (22:18)

Aione!
Como precisamos de livros raiz como esse, para entendermos cada vez mais a voz das pessoas negras.
Baixei o ebook e espero ler quando puder, é empoderamento.
Através de livros como esse poddemos conhecer mulheres valentes.
cheirnhos
Rudy

Angela Cunha - 10, junho 2020 às (07:29)

Aquele livro que todos deveríamos por obrigação, ter acesso. Puxa, confesso que ainda não tinha lido ou visto nada a respeito do livro e já adorei tudo que li acima. Até por trazer esse formato mais de contos, trazendo com leveza, assuntos tão importantes e atuais.
Quem dera acordássemos um dia, e não houvesse mais racismo, preconceito..mas estamos longe disso.
Só que de letra em letra, atos em atos, vamos alcançando algumas justiças!
Já vai pra listinha de mais desejados!!!
Beijo

Anna Mendes - 10, junho 2020 às (09:41)

Oi Aione!
Dizer que fiquei apaixonada pela edição desse livro é pouco. Que coisa mais linda essas ilustrações!!
Eu já tinha ouvido falar desse livro e, após ler a sua resenha, fiquei morrendo de vontade de fazer a leitura!
Por serem contos, deve ser uma leitura muito rápida e envolvente de fazer.
E que livro atual, não? Até um presságio do Coronavírus ele tem. E, ainda mais, por falar sobre representatividade feminina e racismo, é praticamente uma leitura obrigatória nos dias atuais.
Espero fazer a leitura em breve! 🙂
Bjos!

eliane - 10, junho 2020 às (10:26)

ola
uma leitura atual e necessaria
estamos vendo o movimento vidas negras importam e aré se parece um pouco com o titulo
desse livro
acho que está mais na hora de acabarmos com essa absurdo ,com essa crueldade que é o rascismo .Quero ler sim a trajetoria dessas pessoas que lutam para conquistar seus sonhos e nesse caso elas tem que lutar com algo a mais, que é o racismo .

Amanda Almeida - 10, junho 2020 às (10:48)

Que capricho de livro e que ilustrações mais lindas! Assunto muito atual e super necessário de ser debatido. O que mais me chamou atenção foi o Coincidências, vejo muito uma moça que acompanho no twitter desabafando sobre essa “solidão da mulher negra”, é uma realidade que infelizmente é mais comum do que imaginamos. Que interessante tratarem de um isolamento social no outro conto, mesmo sem saberem que viveríamos isso pouco tempo depois. Achei demais que o livro foi todo feito por pessoas negras, incrível.

Beijos,
Amanda Almeida

Lynn Prado - 10, junho 2020 às (14:52)

Oooie
Vi esse livro no kindle esses dias e a capa me chamou bastante atenção.
Não sabia que essa antologia tinha ilustrações, que lindas!
Todos os contos parecem ser bem bacanas, fiquei bem curiosa para ler foi “Na ponta dos sonhos”, a história da Dandara parece ser bem emocionante.
Bjs

Theresa Cavalcanti - 14, junho 2020 às (09:52)

Olá, Aione

Eu peguei o ebook esses dias, porque vi que estava de graça.
To bem empolgada para ler ele, apesar de não gostar muito de livros de contos, mas vou dar uma chance com certeza.
As imagens são muito bonitas, queria a versão física só por isso KKKK

Beijos

Giovanna Talamini - 18, junho 2020 às (11:59)

Oi ♡
Essa edição física é tão linda, adorei a maneira como foi construída.
É de grande importância vermos representatividade na arte, em formato de contos ainda, amo amo!

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