[Resenha] Canção de Ninar — Leila Slimani | Minha Vida Literária
31

ago
2018

[Resenha] Canção de Ninar — Leila Slimani

Título: Canção de Ninar
Título original: Chanson Douce
Autor: Leila Slimani
Tradutor: Sandra M. Stroparo
Editora: Tusquets
Número de Páginas: 192
Ano de Publicação: 2018
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Quem cuida dos seus filhos quando você não está olhando? Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde. Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de Ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos entre classes e culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade. Publicado em mais de 30 países e com mais de 600 mil exemplares vendidos na França, Canção de Ninar fez de Leïla Slimani a primeira autora de origem marroquina a vencer o Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário francês.

Canção de Ninar é o livro de Leila Slimani vencedor do prêmio francês de literatura Goncourt de 2016. Publicada no Brasil pelo selo Tusquets da editora Planeta, a obra se faz relevante especialmente pelas temáticas abordadas e pela maneira de como elas são tratadas na narrativa.

Quando Myriam decide retornar ao mercado de trabalho, ela e o marido contratam Louise para ser babá das duas crianças do casal. O que se inicia como, aparentemente, uma ótima relação, logo se revela uma situação de dependência entre ambas as partes, e os pequenos desgastes daí surgidos culminam na tragédia que move o enredo.

Canção de Ninar está sendo anunciado como thriller psicológico e não ouso discordar de tal classificação. Contudo, quem espera encontrar na leitura os elementos típicos do gênero pode se frustrar. Aqui, não há um grande mistério a ser revelado; ao contrário, a tragédia anunciada na sinopse já é entregue ao leitor na primeira linha do romance. Tampouco o enredo é construído em cima do suspense — ao menos, não aquele característico, capaz de aguçar tanto curiosidade quanto temor. O que Leila Slimani habilmente entrega é uma narrativa criada sobre tensões, que se intensificam justamente pela aparente naturalidade com que se constroem.

O foco narrativo de Canção de Ninar se dá em terceira pessoa e também nesse aspecto se diferencia do tipicamente presente em thrillers psicológico. Para a história contada, a escolha não poderia ter sido outra. É por conta desse olhar onisciente que somos capazes de acompanhar as diferentes realidades e perspectivas retratadas e, dessa maneira, compreender o que está sendo contado — e criticado. As falas e pensamentos das personagens, tão naturais e naturalizadas, revelam as ideias sócio-culturais que estão por detrás de cada enunciação, de forma que são questionados temas como as diferenças entre papéis socialmente assumidos por homens e mulheres — o que envolve maternidade, paternidade e mercado de trabalho —, preconceitos entre classes e culturas, bem como as diferentes relações de poder que daí se desenvolvem. As observações feitas ao longo da narrativa são precisas, como somente um olhar atento ao mundo ocidental em que estamos inseridos seria capaz de reproduzir. Ao mesmo tempo, é também necessário um posicionamento crítico para captar as sutilezas com que Leila Slimani trabalha, essenciais para se enxergar a abrangência do romance.

Em relação às personagens, o mais interessante entre elas é observar como se faz o jogo entre externo e interno. Ao mesmo tempo que temos acesso a seus medos e anseios, responsáveis por constituírem-nas como sujeitos individualizados, detentores de uma personalidade própria, também compreendemos como essa personalidade é constituída e afetada pelo meio em que vivem: elas são frutos da sociedade e da cultura na qual estão inseridas e condicionadas por elas.

Em linhas gerais, adorei a leitura de Canção de Ninar não apenas pelos temas em que toca, mas especialmente pela forma de como isso foi feito. A leitura é fluida e a linguagem utilizada por Leila Slimani é tranquila, mas carregada de questionamentos e reflexões. O livro é capaz de despertar agonia não apenas pela tragédia iminente e inevitável, já que anunciada desde a primeira linha, mas sobretudo pelo aprisionamento social no qual as personagens, cada uma a seu modo, estão inseridas.





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Uma resposta para "[Resenha] Canção de Ninar — Leila Slimani"

Anna Mendes - 01, setembro 2018 às (19:05)

Oi Aione!
Adorei a resenha! <3
Eu estava muito ansiosa aguardando a sua resenha desse livro!
Achei a premissa muito diferente e instigante!
"(…) são questionados temas como as diferenças entre papéis socialmente assumidos por homens e mulheres — o que envolve maternidade, paternidade e mercado de trabalho —, preconceitos entre classes e culturas, bem como as diferentes relações de poder que daí se desenvolvem. " – Eu não sabia que a história abordava todos esses temas que você comentou e achei isso muito legal. parece ser uma thriller bem diferente mesmo.
Fiquei muito curiosa para fazer a leitura! 🙂
Bjos!

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