[Resenha] Céu Sem Estrelas — Iris Figueiredo | Minha Vida Literária
Minha Vida Literária
02

mar
2021

[Resenha] Céu Sem Estrelas — Iris Figueiredo

Um romance sensível e envolvente sobre autoestima, família e saúde mental.
Cecília acabou de completar dezoito anos, mas sua vida está longe de entrar nos trilhos. Depois de perder seu primeiro emprego e de ter uma briga terrível com a mãe, a garota decide passar uns tempos na casa da melhor amiga, Iasmin. Lá, se aproxima de Bernardo, o irmão mais velho de Iasmin, e logo os dois começam um relacionamento.
Apesar de estar encantado por Cecília, Bernardo esconde seus próprios traumas e ressentimentos, e terá de descobrir se finalmente está pronto para se comprometer. Cecília, por sua vez, precisará lidar com uma série de inseguranças em relação ao corpo — e com a instabilidade de sua própria mente.

 

Ficha Técnica

Título: Céu Sem Estrelas
Autor: Iris Figueiredo
Editora: Seguinte
Número de Páginas: 360
Ano de Publicação: 2018
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Resenha: Céu Sem Estrelas

Céu Sem Estrelas é o romance jovem adulto de Iris Figueiredo. Publicado pela editora Seguinte, teve seus direitos para adaptação audiovisual adquiridos pela produtora Elo Company. 

Cecília cresceu tendo problemas com a mãe, cuja melhor maneira de lidar com os desentendimentos com a filha é a enviando para passar uns tempos com a avó. Tomada pelo sentimento de rejeição materna e social, já que seu corpo gordo não atende aos padrões e é constantemente excluído, além de condenado, tudo fica mais difícil quando ela é demitida. Ao ser novamente expulsa de casa pela mãe, ela fica hospedada com a melhor amiga, Yasmin, e passa a conviver mais com Bernardo, irmão da amiga e sua paixão secreta.

Iris Figueiredo tem daquelas escritas leves, que te envolvem em um piscar de olhos. Com habilidade, a autora insere o leitor no cotidiano de seus personagens, abordando com muita sensibilidade suas formas de pensar e sentir. Em Céu Sem Estrelas, a narrativa em primeira pessoa se alterna entre as perspectivas de Cecília e Bernardo, e adorei como suas vozes são próprias, com uma linguagem particular pertinente a cada um. Algo importante nessa alternância, também, não está apenas no ritmo que imprime na narrativa ou em como nos permite conhecer melhor cada personagem, mas especialmente em mostrar a diferença na perspectiva entre os dois. Em se tratando da visão de Bernardo sobre Cecília, é muito importante que a autora tenha colocado o quanto ele a acha linda, o quanto se sente atraído por ela, uma vez que Cecília é gorda e, normalmente, personagens assim não são retratadas dessa maneira. Além disso, a boa caracterização, aliás, não se restringe aos protagonistas: os personagens secundários cativam e são dotados de histórias próprias. Vi em cada um o potencial de receber um romance spin-off, para que suas narrativas pudessem ser também trazidas aos leitores.

“Cuidado”, talvez, tenha sido uma das palavras que mais ressoou em minha mente durante a leitura. Senti cuidado em como o enredo foi trabalhado, em como as temáticas foram abordadas, em como os personagens se expressam. Cecília, mesmo sobrecarregada, é capaz de expor seus limites e a importância de ser respeitada; Bernardo reflete diversas vezes sobre responsabilidade afetiva e sobre seus propósitos, questão essa recorrente a nós em diversas fases da vida. Entre as personagens secundárias, encontramos a representatividade de pessoas negras, LGBTQIA+ e com deficiência, que estão contextualizadas na trama, com seus conteúdos próprios presentes na narrativa. Tudo em Céu Sem Estrelas foi colocado de maneira a se indicar muita ponderação em como seria trabalhado, e Iris Figueiredo fez escolhas bastante acertadas.

O tema principal da obra é a saúde mental, mostrando-se tanto a progressão de um transtorno e sua manifestação, quanto as dificuldades envolvendo o diagnóstico e o tratamento, algo importantíssimo não só por haver muitos tabus e preconceitos ao redor do tema, quanto por proporcionar conforto a quem passa por uma situação semelhante. Apesar de nossos contextos diferentes, me identifiquei com muitas das sensações de Cecília por sofrer de ansiedade, e minha vontade ao longo da leitura era a de envolvê-la em um abraço — o que, indiretamente, me faz também olhar com mais gentileza para mim mesma.

Vale dizer, também, que fiquei encantada pelas ambientações. Iris Figueiredo retratou muito bem os locais onde a história se passa, sobretudo as cidades de Niterói e São Gonçalo, de maneira que pude me sentir caminhando por aquelas ruas. Senti um enorme reconhecimento na dinâmica familiar, em especial nos encontros na casa da Vó Marília, o que também torna a leitura mais aconchegante. Ainda, as inúmeras referências presentes na narrativa causam uma aproximação ainda maior, principalmente a quem é leitor. Ri quando Bernardo mencionou sua confusão sobre Desejo e Reparação, acreditando se tratar da adaptação de um livro de Jane Austen, pois, na época de seu lançamento e antes de ler a obra de Ian McEwan, pensei a mesma coisa — e soltei um gritinho de prazer por Reparação, um dos meus livros favoritos da vida, ter sido um dos tantos citados.

Céu Sem Estrelas foi daquelas leituras de narrativa leve, mas de temática profunda, abordada com sensibilidade e de maneira própria para se conversar com seu público alvo, sendo capaz de ir além dele. É um livro sobre saúde mental, mas também sobre a dinâmica da vida, que inclui frustrações, problemas de relacionamentos e questionamentos sobre quem somos — e para onde estamos caminhando. Acima de tudo, é um livro acolhedor, seja por sua forma de agir com o leitor, seja por retratar a importância das nossas redes de apoio, compostas por amigos e familiares com quem verdadeiramente podemos contar. Na última semana, Iris Figueiredo lançou o conto Pisando em Nuvens, protagonizado por Taís, prima de Cecília, recém aprovada em sua segunda opção do vestibular. A leitura é rápida e igualmente envolvente, tendo me emocionado e cativado em pouquíssimas páginas ao trazer o dilema da personagem, dividida pelos caminhos que se abrem quando as coisas não acontecem conforme o planejado.





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Uma resposta para "[Resenha] Céu Sem Estrelas — Iris Figueiredo"

RUDYNALVA CORREIA SOARES - 02, março 2021 às (23:05)

Aione!
Que livro mais delicado.
Gosto quando os autores tratam assuntos de distúrbios psicológicos com muito cuidado.
Vou procurar para ler.
cheirinhos
Rudy

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